
Não era incomum ver uma menina de preto e jeans andando no meio de pessoas. Também não era nenhum pouco incomum que essa menina estivesse indo ao contrário da multidão que se arrastava, às 5:30 da manhã, para seus afazeres. Advogados, professores, médicos, construtores, pedreiros, artesãs, cantores, dançarinos, padeiros, rendeiras... todos caminhando em direção às suas monótonas vidinhas... algumas com sentido, outras sem... Às vezes eu discordo das coisas que vejo, e nem sempre as pessoas concordo com o que eu discordo... Acho que nunca pensaram realmente em como é ser uma pessoa como eu... aparentemente neutra, mas com pensamentos que ultrapassam as leis da sociedade... ou do pudor.
Não é realmente que eu seja diferente. Não sou diferente. Não tenho três pernas, cinco braços, ou seis tetas. Simplismente penso de maneira mais... como posso dizer?,... hmmm... complexa. Nem sempre as pessoas me confundem com outras coisas, ou me julgam. Não sou suficientemente importante pra isso. Não uso brincos espalhafatosos, não gosto de piercings, não uso tatoos... Também não sou a mais aplicada na escola, não sou de falar muito. Alguns da minha classe nem sabem o meu nome... se é que já me viram. E, sinceramente, eu não planejo ser notada... Assim, eu terei mais tempo para pensar em como alcançar os meus objetivos, sem que coisas que não tem real importância me afetem.
Já passei muito tempo pensando em o porquê de as pessoas nunca me notarem realmente. Qual o motivo para que eu não tivesse realmente muitos amigos (tenho no máximo seis, e olhe lá)... Agora eu entendo. As pessoas não nasceram pra ser chamativas. Elas não nasceram para serem melhores do que outras. Não nasceram para provas que são mais bonitas, ou têm um senso de moda mais legal. As pessoas nasceram pra evoluir, nem sempre físicamente, sim psicologicamente. É dessa forma que planejo evoluir.
Quanto aos sentimentos... sim, eu sinto. Claro que sinto. Tenho um amor profundo e claramente visível. Algo que não consigo esconder, mesmo sendo uma das mais neutras pessoas no mundo. Eu sei. Ele sabe. Está tudo bem. Não tenho medo de dizer que o amo, nem vergonha. Digo isso porque penso que alguém que não tem sentimentos, mesmo sendo o mais inteligente ser do universo, não é ninguém. Sem sentimentos uma pessoa não se preocupa com ninguém, nem sabe o que é realmente importante. Não é vida. É espectro de vida.
Acho que esse relato já está ficando comprido por demais... mas sinto como se alguém, nem que seja a mais remota das pessoas, tenha lido esse texto e, talvez, pense que nem todas as pessoas neutras são só neutras. Elas também são pessoas, com pensamentos, objetivos e desejos, talvez, desejos pecaminosos (como os meus), mas, ainda assim, desejos. Sonhos também são grandes atrativos. Elas também são inteligentes. Também se aplicam no que querem...
Talvez sejam como eu.
FK.




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