Eu estava entediada. Vestidos, blusas, calças, shorts! Inferno! Por que me obrigam a ficar dentro de lojas e escolher milhares de roupas que eu não vou comprar? Eu estava carregando sacolas e bolsas, enquanto sonhava internamente em escapulir da loja e entrar numa outra ao lado, que vendia quadrinhos. Olhei para a menina do meu lado. Loiríssima, salto 15, olhos azuis, 1.70 de altura.
- Karla, toma isso aqui. - Coloquei todas as bolsas e sacolas nos braços dela, e me virei.
- Ondje 'cê vai, Txica? - Ela arregalou os olhos por trás das lentes escuras.
- Vou... aqui ao lado, depois eu volto. - Ela ainda perguntou alguma coisa, mas eu não escutei. Por que é tão difícil ser diferente das minhas amigas? Diferente da Karla, eu não usava saltos ou roupas de marca. Minha camisa xadrez de mangas compridas já estava fubenta. Minha calça jeans já estava com um arranhão no joelho, e eu realmente não ligava de estar num shopping vestida daquele jeito. Meus allstars faziam um "toc, toc" vazio e sem vida no meio da multidão arrumada. Será que estavam me observando? Entrei pelas portas da loja, onde me sentia mais confortável. Parei na frente da minha coleção favorita, quando ouvi um romper mágico das portas silênciosas.
- Garota, vamos logo! Você precisa ver esses sapatos! - Era a Laila, outra que vivia comprando. Elas sabiam que eu era compulsiva por sapatos. Tinha mais sapatos que blusas. Mas isso era só um golpe pra me mostrar uma nova blusa que a Karla tinha comprado.
- Agora não, Lala. - Virei para os quadrinhos de novo.
- Agora sim, Fran! - Ela me agarrou pelo pulso e me carregou. Eu não pudia me recusar a ir com ela, havia concordado em aparecer no shopping. Ah, como elas eram muito mais divertidas sem todo aquele glamour ao redor!
Olhei minhas unhas enquanto elas experimentavam milhares de roupas. Eu não era feia, mas não era uma miss. Se eu quisesse, poderia. Mas, por que não?
Depois de intermináveis horas, elas decidiram ir embora, com 5 das trocentas roupas que experimentaram. E eu continuei sem saber o que fazer. Mas estava feliz. Eu sabia que todos os meus irmãos estariam em casa me esperando para jogar uma partida de poker e beber cerveja irlandesa. Abri um sorriso, girando o chaveiro feito de madeira das minhas mãos.
Eu pudia não ter aproveitado as horas no shopping, mas isso me fez pensar. O que será que eu faria se eu fosse elas?
Hmmm
Não.
Prefiro meu poker.





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