O Caminho Invisível


Segunda-feira , 09 de Novembro de 2009


A garota

A mocinha tinha cheiro de boneca. Ou era daqueles batonzinhos que elas têm, que parecem um morango? Não lembro muito bem. Ela sentava num banco da praça que havia na cidade, e passava horas observando o sol, as árvores, as flores. eu a observava de longe, com meu grupo de amigos. Alguns tiravam "sarro" dela, falando que ela devia ser "mal-amada", mas eu não acreditava nisso.

Um dia, achei por bem me saparar deles e ir até ela. Meus amigos me zoaram, faziam piadas e me davam empurrõezinhos, insinuando coisas obscenas e impensáveis para mim. Aquele era o tipo de garota em quem eu nunca tocaria.

Quando me aproximei, ela me olhou e sorriu.

- Bom dia. - A moça me cumprimentou, e aquilo bastou para que eu me derretesse completamente. Era a voz mais doce que eu já havia escutado. O nome da dona era Michaella. Passamos a tarde inteira conversando. Ela era inteligente, engraçada, e falava sobre tudo. Todos os dias eu conversava com ela. Meus amigos me cobravam, me chamando de tudo. Mas eu não me importava mais. Eu era dela agora.

Depois de quase um mês - muitos shows perdidos, um melhoramento cultural e educacional, risadas e brincadeiras -, tomei coragem e perguntei:

- Afinal, porque todas as tardes você vem aqui e não faz nada além de observar?

- Ah. - Ela não pareceu surpresa, nem teve vergonha de responder. - É que eu tenho câncer. Deopis que eu descobri, comecei a olhar o mundo de um ângulo diferente. Aprendi a hora de voltar para casa apenas observando o sol. Ele é tão cheio de cores; tão magnífico...

Eu não consegui falar. Michaella observava tudo porque mais cedo ou mais tarde ela não poderia mais. A algum tempo, eu pensava em pedi-la em namoro, mas agora ela pensaria que era por pena. Eu não poderia!

Passamos mais duas semanas na mesma rotina, como se ela nunca tivesse me contado nada. Perguntei seu telefone, onde morava. A cada dia que se passava eu ficava mais ansioso para vê-la. Até que um dia ela não apareceu.

Fui até sua casa. Quem me atendeu foi uma mulher de meia-idade, e aprecia me conhecer.

- Você é o João? - Ela perguntou, assim que a indaguei sobre Michaella.

- Sim. - Respondi, mexendo em meus cabelos claros.

- Ela está hospitalizada. Queria ver você, mas eu não sabia onde encontrá-lo.

Nem perguntei desde quando. Peguei o endereço e corri até onde minha amada estava.

Quando me deixaram entrar na UTI, ela estava deitada, pálida e quase adormecida.

- Bom dia. - Ela falou, e eu notei como sentiria falta daquela voz. Conversamos um pouco e, vendo a dificuldade dela, ficamos em silêncio.

Eu me levantei, decidido, e olhei nos olhos dela.

- Michaella... - Senti meus olhos arderem, e lágrimas formarem-se. - Eu amo você.

Ela sorriu, me tocando no rosto. Fechou os olhos e suspirou, dizendo:

- Era tudo o que eu precisava ouvir, meu amor.

E então, ela se foi.

Eu ainda a amo. Ela me mudou completamente... E eu ainda a amo.

FabríciaMartins, 2009.

Escrito por Fabrícia Martins às 02h05
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